Mãe e filha denunciam lesões sofridas após tratamento estético contra estrias, em Goiânia

Por Sílvio Túlio, G1 GO

Após procedimento na barriga, estrias ficaram ainda mais evidentes — Foto: Arquivo pessoalApós procedimento na barriga, estrias ficaram ainda mais evidentes — Foto: Arquivo pessoal

Após procedimento na barriga, estrias ficaram ainda mais evidentes — Foto: Arquivo pessoal

Uma dona de casa, de 40 anos, denuncia que ela e a filha, de 16, ficaram com lesões permanentes em seus corpos após realização de um procedimento estético contra estrias, em uma clínica de Goiânia. A mulher, que prefere não se identificar, disse que a farmacêutica responsável pelo procedimento, Stefani Garcia Rezende, teria usado corticoide na aplicação, o que é contraindicado para o problema. Após registro de uma ocorrência na Polícia Civil, o Ministério Público ofereceu denúncia, que foi aceita pelo Poder Judiciário.

Ao G1, o advogado de Stefani, Gustavo Machado Soares disse que ainda não teve acesso aos autos e que, por isso, não vai se pronunciar. A reportagem também ligou para a farmacêutica, na manhã desta sexta-feira (21), mas a secretária dela disse que ela não falaria sobre o caso.

Segundo a dona de casa, ela e a filha procuraram, em 27 de outubro do ano passado, a clínica Esthétique Corpo & Face, no Setor Sul, indicadas por uma amiga. Ela fez aplicações no abdômen e coxas. Já a adolescente passou por procedimento nos glúteos, realizado por Stefani, chamado de intradermoterpia, ao custo de R$ 175 cada sessão.

“Era uma espécie de hidratação das estrias. Cerca de 30 dias depois, começamos a sentir dores e as estrias, ao invés de afinarem, ficaram da largura de um dedo. A pele também afundou e ficou roxa. Voltei à clínica e disseram que era um processo inflamatório normal”, disse a mulher ao G1.

No entanto, os problemas persistiram e ela novamente retornou ao centro de estética. Um técnico de enfermagem, sócio de Stefani, as atendeu e, segundo a dona de casa, informou o produto para o tratamento havia sido aplicado junto com corticoide.

Elas foram levadas a uma dermatologista indicada pela clínica, que receitou um procedimento reparador. Seis sessões foram realizadas, mas o problema persistiu.

“Estou arrependida. Isso impactou profundamente não só fisicamente, mas também no âmbito psicológico. Minha filha até pensou em suicídio, está muito abalada. Posso fazer uma cirurgia plástica para resolver os problemas na minha barriga, mas nas minhas coxas e nos glúteos da minha filha a situação pode ser irreversível”, desabafa.

Cansada da situação, a mulher procurou sua própria dermatologista, Isadora Paiva, que analisou a situação e constatou lesões graves. A pedido dela, mãe e filha foram ao Instituto Médico Legal (IML) e realizaram exames de corpo de delito, os quais constataram “deformidades permanentes”.

Em seguida, em abril deste ano, ela registrou boletim de ocorrência no 1º Distrito Policial de Goiânia, que passou a investigar o caso como lesão corporal.

Adolescente de 16 anos ficou com lesões nos glúteos — Foto: Arquivo pessoalAdolescente de 16 anos ficou com lesões nos glúteos — Foto: Arquivo pessoal

Adolescente de 16 anos ficou com lesões nos glúteos — Foto: Arquivo pessoal

Corticoide

 

Stefani foi intimada pela polícia e prestou depoimento sobre o caso. No termo de declarações, ela afirmou que tem especialização em estética, confirmou que realizou os procedimentos nas pacientes. Relatou ainda que, “usualmente”, utiliza corticoide na composição para o tratamento de estrias, pois, “sempre obteve resultados satisfatórios em outras clientes”.

A farmacêutica, no entanto, afirmou que no caso das duas pacientes, não sabe confirmar se utilizou corticoide, uma vez que “os prontuários de ambas foram subtraídos da clínica”.

Por fim, afirmou o uso de corticoide para tratar estrias é “técnica difundida nos cursos estéticos que já participou”. Todavia, ela não soube informar se há “comprovação científica” para o tratamento.

Porém, segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional Goiás (SBD-GO), o corticoide não é receitado para o tratamento em questão. Em posicionamento enviado ao G1, o órgão cita a própria demagogista das vítimas, Isadora Paiva, na qual ela diz: “Nós, dermatologistas, usamos corticoide injetável para tratar queloides grossas, para afiná-las, e não para tratar estrias”.

Além disso, o presidente da SBD-GO, Adriano Loyola alerta que “procedimentos estéticos invasivos devem ser realizados por médicos capacitados – como dermatologistas e cirurgiões plásticos”.

No entanto, o Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO) afirmou que Stefani possui registro ativo no órgão e é especialista em Farmácia Estética, o que “lhe permite o direito de atuar na área de saúde estética”.

Por outro lado, o Conselho destaca que o uso de corticoide injetável é restrito apenas para médicos. Neste sentido, foi aberto um procedimento administrativo para apurar “eventual falta ética disciplinar”. O caso é investigado pela Comissão de Ética Profissional.

Segundo dona de casa, estrias engrossaram e pele afundou no local da aplicação — Foto: Arquivo pessoalSegundo dona de casa, estrias engrossaram e pele afundou no local da aplicação — Foto: Arquivo pessoal

Segundo dona de casa, estrias engrossaram e pele afundou no local da aplicação — Foto: Arquivo pessoal

 

Sócio

 

O técnico em enfermagem e enfermeiro Pedro Henrique Gonçalves Lira é sócio de Stefani na clínica e foi quem realizou as seis sessões para tentar reparar as lesões sofridas pelas pacientes. Ele também depôs a polícia sobre o caso.

Em sua oitiva, ele disse que, após ser procurado pelas pacientes, conversou com Stefani, a qual “confirmou acréscimo de corticoide ao tratamento das vítimas”. Além disso, disse que era de interesse seu e de sua sócia “tentar qualquer possibilidade de reparação dos possíveis danos ocasionados às vítimas”.

Ao G1, Pedro disse que acompanhou mãe e filha em todas as consultas após o procedimento que provocou os problemas.

“Nós pagamos todas as consultas e até mesmo R$ 8,4 mil para ela fazer uma cirurgia plástica. No entanto, ela pediu para que recolhêssemos os cheques porque ela iria entrar na Justiça”, destaca.

A vítima, no entanto, diz que esse valor se refere apenas às custas médicas de um dos procedimentos que ela tem que fazer, não incluindo uma série de outros fatores. “Ainda falta todo o tratamento da minha filha. Tudo vai custar cerca de R$ 100 mil. Esse valor que ele pagou é irrisória”, disse.

Pedro conta que depois do ocorrido, a clínica fechou e paralisou as atividades por questões financeiras. Ele afirma que está desolado e pretende deixar de atuar na profissão.

“Em momento algum disse que não houve problema, mas a gente estava dando toda assistência. Não estou feliz com isso”, afirma.

Processo

 

A Polícia Civil concluiu o inquérito e o Ministério Público denunciou Stefani pelo crime de lesão corporal grave dolosa que ocasionou deformidade permanente. O documento é assinado pelo promotor de Justiça Rodney da Silva e tem como testemunhas, Pedro, as duas vítimas, e a dermatologista delas.

A denúncia já foi aceita pela Justiça, que tornou Stefani ré. Em seu despacho, o juiz Denival Francisco da Silva, disse que “estão presentes elementos palpáveis quanto a materializada delitiva, bem como indícios veementes de autoria que recaem sobre a denunciada”.

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