Mulheres e especialistas divergem sobre uso da pílula para fins estéticos

A redatora publicitária Vanessa Ventura, 27, usa pílula para prevenir gravidez e controlar o fluxo (Evandro Veiga/CORREIO)

Saiba vantagens e desvantagens do método e entenda como ele atua para melhorar a pele e o cabelo.

Quem nunca ouviu que a pílula anticoncepcional, além de ser um dos métodos contraceptivos mais usados pelas mulheres no mundo, também é ótima para diminuir a ocorrência de acne (espinhas) no rosto e no corpo, além de melhorar o aspecto na pele e dar brilho ao cabelo? Foi justamente pensando nisso que a sou estudante de farmácia baiana Carla Sandes, 33 anos, passou a tomar a pílula, a partir da orientação da sua dermatologista.

“Os produtos dermatológicos sozinhos não resolveram. Então passei a usar a pílula em associação, o que ajudou a reduzir a chamada acne da mulher madura e a oleosidade da face também. Minha intenção principal era tratar a acne – porque mesmo usando anticoncepcional, nunca dispenso preservativo”, conta a estudante.

Carla tomou pílula para tratar acne
(Foto: Reprodução/Instagram)

Assim como ela, milhares de mulheres recorrem ao contraceptivo oral combinado, a pílula, com intenções estéticas. Apesar do método ajudar nessas questões, nem sempre é a melhor saída. Pelo menos é o que acreditam os especialistas ouvidos pelo CORREIO. Mulheres e médicos divergem sobre o uso da pílula para outros fins – além da prevenção da gravidez.

Como agem através dos hormônios, as pílulas anticoncepcionais podem interferir na produção de oleosidade da pele – o que pode gerar cravos e espinhas. Mas, segundo a dermatologista Karina Frias, apenas as pílulas que têm na composição substâncias com efeito antiandrogênico (inibindo a ação de hormônios sexuais masculinos) melhoram a acne.

“A pílula pode ser usada como coadjuvante no tratamento estético quando os tratamentos convencionais tópicos e orais não surtem efeito”, explica a especialista. Antes de partir para o método, ela geralmente opta por outros tratamentos menos invasivos e analisa se a mulher não tem restrições ao medicamento.

Especialistas indicam uso da pílula em associação com camisinha
(Foto: Shutterstock)

“No caso da acne, é importante o uso de um sabonete para pele oleosa, medicações tópicas como os retinóides (vitamina A), peróxidos e associações com antibióticos. Na acne da mulher adulta, o ácido azelaico (em creme ou gel) é um ativo importante para associar”, afirma. O ácido é usado também para tratar rugas e manchas. Para melhorar a oleosidade do rosto, da pele e ajudar na vivacidade dos fios capilares, ela recomenda a utilização de suplementos orais como zinco, que regula a produção sebácea.

Em casos específicos, a dermatologista recomenda a pílula para tratar calvície e acne da mulher adulta, que deve ser ingerida com acompanhamento de ginecologistas. Foi assim com Carla, que por mais de um ano tomou pílula para tratar as espinhas hormonais. O procedimento, além de ajudar na sua autoestima, promoveu um melhor bem-estar. “Minha menstruação ficou mais regular, diminuiu a minha tensão pré-menstrual (TPM) e as cólicas menstruais”, completa ela, que não sentiu efeitos ruins durante o uso do contraceptivo.

Os anticoncepcionais com efeito antiandrogênicos inibem a ação de hormônios como a testosterona, que estimulam a produção de sebo pelas glândulas da pele. Assim, há uma melhora das lesões de acne. “Como os anticoncepcionais evoluíram e os efeitos colaterais diminuíam com o tempo, tem gente que usa para outros fins. As pílulas mais utilizadas são compostas por dois tipos de hormônio, o estrogênio e a progesterona. O estrogênio em si acaba sendo bom para a pele e para o cabelo porque diminui os hormônios masculinos e ajuda na produção de colágeno”, explica a diretora da Sociedade de Ginecologia da Bahia (Sogiba), Carla Kruschewsky Sarno.

 

Deslize para ver o esquema

Deslize para ver o esquema (Correio Gráficos)

Ciclo menstrual

Apesar de comumente usado para outros fins, o método é indicado ainda para quem quer parar de menstruar ou regular o fluxo menstrual. “Vejo mais pacientes que não querem menstruar ou querem regular o fluxo do que por outros motivos, principalmente porque o ciclo vêm com uma série de sintomas que atrapalham na qualidade de vida da mulher – cólica, endometriose e até anemia. Nesses casos, justifica o uso da pílula”, defende.

Esse é o caso da redatora publicitária e relações públicas Vanessa Ventura, 27, que toma pílula há dez anos para se proteger e regular seu ciclo menstrual. “Comecei a tomar um ano depois do início da minha vida sexual como uma segurança a mais. Como meu ciclo era irregular, sentia essa necessidade de regularizar. Como vou no ginecologista duas vezes ao ano, ela sugeriu que eu tomasse a pílula de baixa dosagem”, lembra ela, que raramente apresentou efeitos colaterais negativos: “Às vezes, percebo que fico um pouco mais disposta quando não tomo a pílula”.

Vanessa toma pílula há dez anos para se proteger e regular seu ciclo menstrual
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Mas, no geral, o contraceptivo só foi positivo. “Tinha muita cólica e melhorou muito. Ainda assim, penso em parar de tomar porque tenho medo das complicações futuras. Estou há dois anos enrolando porque realmente existe uma praticidade. Fora que é bem acessível: uma cartela da minha pílula custa em torno de R$ 20”, acrescenta ela, que toma um comprimido diariamente por 21 dias e tem sete de intervalo, período em que menstrua normalmente. Uma de suas metas para 2019 é trocar o método pelo dispositivo intrauterino (DIU).

Efeitos e doenças

A preocupação de Vanessa é legítima, afirma Carla. Embora seja raro, quem usa a pílula periodicamente pode apresentar efeitos colaterais e têm risco de ter trombose e até derrame cerebral (AVC).

“Por isso não concordo com o uso único e exclusivo da pílula para estética. Nesses casos, antes de passar o anticoncepcional, normalmente oriento a melhora da alimentação, tratamentos locais no rosto e no cabelo e, às vezes, um antibiótico. Em exceções, uso hormônios antiandrogênicos que não necessariamente são anticoncepcionais”, explica a ginecologista.

Assim como Vanessa, o objetivo da publicitária Cristal Bittencourt, 36, nunca foi estético. Ela queria mesmo evitar uma gravidez indesejada e decidiu utilizar a pílula além da camisinha. “Mesmo depois de casada, sempre me senti mais segura com os dois métodos”, explica. Após anos usando a pílula, ela teve um problema sério no joelho e precisou ficar semanas em repouso, sem andar. No começo do segundo mês teve a trombose. “Segundo meu angiologista, foi uma combinação da imobilidade com anos tomando pílula. Isso provavelmente não aconteceria se não tivesse tomado. Na época, não tinha noção por ter tomado direto, mas depois reparei que prejudicou minha libido e ocasionou alterações de humor”, conta Cristal.

Sua dermatologista também associou uma mancha que ela tem nas costas ao uso contínuo da pílula. “Uma mancha na pele, bem marrom, inofensiva, mas que me incomoda. Também tenho pequenos pontinhos marrons no rosto. Tenho feito tratamento de pele para tentar diminuí-los. Minha pele era muito mais oleosa nos anos de pílula”, lembra, ressaltando que não indica o método para ninguém: “Não uso mais nada que seja invasivo pro meu organismo. Só camisinha”.

  • Vantagens da pílula contraceptiva oral

Fácil de usar: Assim como outros comprimidos, é só colocar uma pílula na boca e ingerir. A mulher deve tomar a pílula no mesmo horário todos os dias, tendo ou não feito sexo. A camisinha é indispensável em qualquer relação sexual, independente do uso de outro método contraceptivo.

De fácil obtenção: Segundo levantamento feito em 2017 pela empresa de pesquisa de mercado Medimix International, preservativos e pílulas são os métodos anticoncepcionais mais utilizados pelas mulheres brasileiras (42% e 32%, respectivamente). A preferência por esses métodos está relacionada ao acesso pelo sistema público de saúde. No Brasil, 69% das jovens têm acesso gratuito à camisinha e 51% à pílula.

Elevado nível de eficácia: Altamente eficaz quando utilizada conforme indicação – o índice de eficácia é de 98%. Isso porque ela bloqueia a ovulação, o que resulta na inexistência de um período fértil. O medicamento interfere no endométrio, dificultando a fixação de um óvulo que escape e seja fecundado. Também evita que espermatozoides atinjam as trompas e fecundem os óvulos. Mas é preciso tomar a pílula adequadamente.

Regula o fluxo:  A pílula anticoncepcional regula todo o sistema reprodutor por conter dosagens adequadas de hormônios — na maioria das vezes, uma associação de estrogênio e progesterona. Assim, logo na menstruação após a primeira cartela, sintomas como as cólicas diminuem, porque o corpo não estimulará mais o útero de maneira exacerbada. Além disso, a tensão pré-menstrual  (TPM) é reduzida devido um equilíbrio hormonal. Isso inibe quedas e picos repentinos de hormônios responsáveis pela ovulação e que afetam diretamente o humor feminino. Algumas pílulas também podem reduzir o fluxo e a dor nas menstruações.

Pele: Muitas mulheres usam a pílula para tratar uma disfunção dos hormônios sexuais androgênicos. O problema provoca, entre outros sintomas, acne, espinhas e pelos faciais. Essa situação muitas vezes afeta a qualidade de vida, bem-estar e autoestima das  mulheres. O nível desses hormônios androgênicos diminui com o uso regular da pílula. Assim, a pele fica mais saudável e o cabelo com mais brilho

Vida sexual: A pílula pode ser tomada durante muito tempo e não requer interrupção da vida sexual.

  • Desvantagens do método

Efeitos colaterais: Pode causar inchaço, cefaleia,  mastalgia, dores de cabeça, varizes e náuseas. É raro, mas algumas mulheres podem ter trombose, ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais.

Emocional: Pode alterar o humor de mulheres.  Isso porque o uso da alta  dose hormonal aumenta os níveis de estrogênio e progestina, que  podem diminuir a produção de serotonina, hormônio que melhora o humor, podendo aumentar o risco de depressão.

Retenção de líquido: É possível que o uso do medicamento provoque retenção de líquido, o que pode resultar em ganho de peso. Devido ao inchaço, as celulites ficam mais visíveis e até aumentam em número.

Atenção: Exige que a mulher controle de forma  cautelosa sua posologia. A eficácia do medicamento pode ficar comprometida em casos de esquecimento.

Fluxo menstrual: Pode alterar o ciclo de forma não esperada.

Pressão alta: Não é tão comum, mas algumas mulheres desenvolvem aumento da pressão arterial.

Doenças: Não protege contra infecção por HIV (AIDS) e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST). Além da pílula, o uso da camisinha é indispensável.

Diminuição da líbido: Pode provocar uma diminuição do prazer sexual devido à redução da produção de testosterona no organismo.

 

 

 

FONTE: Jornal Correio Da Bahia

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